
domingo, 18 de novembro de 2007
Aquele era o pior dia de sua vida.
Era o tipo de pessoa que não precisava de ninguém, tão auto-suficiente que dava dó. Chegou em casa e abriu a porta: nada, ninguém. Em outras épocas [todas as anteriores, diga-se de passagem] acharia isso o máximo. Chegaria em casa, tiraria a roupa, colocaria o som no volume máximo, ligaria o computador pra jogar qualquer conversa fora até ficar com sono e depois dormiria. A época é outra. Ou ela o é. A questão é que estava tudo escuro, e não só aquela sala verde, nem o quarto laranja, nem o roxo, nem nenhuma cor. Estava tudo escuro por dentro. Vácuo. Aquele era o pior dia de sua vida. Abriu a porta, as pernas andaram, não eram suas, e caiu no sofá. Quando voltou a si pensou que aquele era o pior lugar que poderia ter escolhido para ficar, lembrou do dia que estava rindo, acompanhada, deitada naquele mesmo lugar, tentando manter as coisas no lugar, era até bonitinho, mas já não funcionava. Aquele era o pior dia de sua vida. Achava que não podia mais fazer nada. Lágrimas no sofá, caminhou até o quarto, deu de cara com aquelas havaianas vermelhas e pensou que só poderia ser piada. Encostada na porta, olhava as havaianas, levantou o olhar pra cama, e pensou que aquele, definitivamente, era o pior lugar. Fechou a porta e não queria ver mais nada para além dela. Aquele era o pior dia de sua vida. Entrou no outro quarto e deu de cara com os presentes, olhou para as camas e pensou que ali também era um péssimo lugar pra ficar. Nem os banheiros se safavam. Nem a cozinha. Nada. Não tinha mais onde ficar. Não tinha nada. Não tinha mais nem a si mesma, o que percebeu assim que deu de cara com o espelho. Estava sumindo a cada dia. Sua avó notaria imediatamente, mas ela não tinha ninguém. Todos estavam longe. Nunca havia se sentido tão sozinha em toda a sua vida, talvez porque isso não a incomodasse antes. Questão é que agora incomodava. Tinha se tornado muito sentimental nos últimos tempos. Tudo a desmanchava. Desabava com qualquer beliscão. Aquela casa nunca a vira desmanchar tanto. Aquele era o pior dia de sua vida. Parada no meio da sala, percebeu que não estava sozinha, e ficou mais incomodada do que antes. Aquelas coisas iam preenchendo a casa toda. Grudavam no seu corpo, junto com as lágrimas. Preenchiam o chão. As paredes. O teto. O sofá. As janelas. As portas. As camas. Os livros. Aquelas coisas tomavam parte de tudo. Olhavam pra ela, rindo, enquanto ela ia fundindo-se ao chão. Sumiu completamente. As coisas ficaram. As memórias ficaram. Aquele era o pior dia de sua vida.
Posted by eu? @ 19:07
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