
terça-feira, 30 de outubro de 2007
3!
Terça-feira. O celular tocou e ela acordou com aquele toque personalizado já conhecido. Olhou pra janela e pensou em como estava lindo o contraste do céu totalmente azul com as folhas bem verdes. “Dia perfeito”, pensou. Disse para si mesma, em alto e bom tom: “ACORDA”. Havia lido em uma apostila de Análise do Comportamento sobre “auto-controle” que funcionava. Não houve resposta. “Skinner equivocou-se”, pensou. Reprimiu-se imediatamente pelo pensamento, ainda assim voltou a dormir. Trinta minutos se passaram, e ela acordou novamente. De súbito, deu um pulo da cama, quase 7 horas. “Meu Deus, a aula!”. Ao passar de um quarto para o outro, ouviu o telefone tocar. Trôpega, foi atender. “Quem será a esta hora?!”, perguntou-se. Não era o mesmo toque, mas era a mesma pessoa. Olhou novamente pra janela e pensou que o dia estava realmente perfeito. “Ocupada?”, ouviu. “Acordei!”, respondeu. Conversa vai, conversa vem, mil coisas passaram pela cabeça, e só pela cabeça. Era tanta coisa junta, que ela não conseguia organizar. Não conseguia projetar para fora de si. Esqueceu-se completamente da aula. Não queria mais aula. Não queria mais nada. A única coisa que queria era passar a terça-feira todinha ouvindo aquela voz. E não só a terça-feira. Todos os dias de sua vida. Mas a voz tinha que desligar. Com o sorriso estampado no rosto tomou banho, comeu, escovou os dentes, foi pra aula. Passou a manhã toda fazendo tanta coisa, e nada ao mesmo tempo. A voz ainda ressoava ao seu ouvido. E era a voz mais linda que já ouvira. Desde sempre. Desde quando ela escutava a voz de longe e as borboletas se remexiam em sua barriga, e ela não sabia o que fazer com elas. Queriam voar. Juntavam-se todas num vermelho intenso que enrubescia sua face. Chegou em casa, almoçou e saiu, ouvindo música. Não deixava as músicas terminarem. Nenhuma melodia superava aquela voz. “E pra quê ouvir tanta música?”, questionou-se, e a ausência de resposta foi a própria resposta. Deixou de ouvir músicas. Deixou de ouvir tudo. Ou melhor, quase tudo. A voz latejava nos seus ouvidos. Penetrava-os. Deixava-a tonta. Desmanchar-se-ia, se não se apoiasse em algum lugar. Ou quem sabe sairia flutuando, ao encontro daquela voz. Sim, era isso que ela queria. A tarde passou, nem sentiu. Pensamento fixo na voz. “Estou tendo alucinações auditivas?”, perguntou-se, amedrontada. Passou dias ouvindo a voz. Consultou todos os psiquiatras da cidade. Ninguém conseguia explicar o fenômeno. A voz persistia. Tatuagem. Persistia. Tatuagem. Persistia. Tatuagem. Tornou-se a própria voz.0 Comments
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